Sabino Pereira Livros, series e musica

Being Human (Unfiltered) · Episódio 4

Ser Apagado Depois de um Relacionamento — Eu Não Quero Desaparecer

Um ensaio sobre memória, apagamento, respeito próprio e deixar ir sem desaparecer.

17 de maio de 2026 Being Human (Unfiltered) Memória Deixar ir
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Uma pessoa sentada junto ao mar ao pôr do sol enquanto fragmentos de fotografias e vídeos se afastam

Há um momento estranho depois de algo acabar.

Não é o fim em si.

Nem o silêncio.

Nem sequer a distância.

É quando ela te pede para apagar as fotos.

Os vídeos.

As partes mais íntimas do que vocês viveram.

Porque “já não faz sentido.”

Porque precisa de “se proteger.”

E tu ficas ali a pensar...

Proteger-se de quê?

Do facto de que fomos reais?

É estranho como algo que antes era tão natural, tão próximo, tão nosso, de repente passa a ser algo que precisa de ser apagado.

Como se fosse um erro.

Como se nunca devesse ter existido.

E nesse momento percebes:

Não estás só a perder a pessoa.

Estás a ser removido da história.

Eu não queria desaparecer.

Não precisava de fazer parte do presente dela.

Mas queria existir naquilo que foi verdade.

Porque eu fui real.

Lembro-me de coisas que não existem em mais lado nenhum.

A forma como ela olhava para mim por mais um segundo... e depois desviava o olhar.

A maneira como a voz dela mudava quando estava cansada.

Aquele momento em que nenhum de nós queria desligar.

E como tudo parecia... simples.

Como se nada precisasse de ser explicado.

Nada disso vive em fotos.

E talvez seja por isso que custa mais.

Porque apagar as fotos não apaga o que realmente importou.

Mas há uma parte que quase ninguém fala.

Ficar preso a memórias onde já não tens lugar vai-te tirando coisas, aos poucos.

Clareza.

Direção.

Identidade.

Eu senti isso.

Cada vez que abria a galeria, parava, e ficava ali mais tempo do que devia.

Não era lembrar.

Era revisitar.

Voltar a um sítio que já não existia.

E ela já não estava lá.

Era só eu a voltar.

E a certa altura, isso deixa de ser amor.

E passa a ser resistência.

Ela queria distância.

Queria sentir-se segura.

E eu entendo isso.

Nem toda a gente carrega o passado da mesma forma.

Mas chegou um ponto em que também tive de me respeitar.

E deixei ir.

Não porque não importasse.

Não porque não tivesse sido real.

Mas porque ficar ali estava, silenciosamente, a prender-me.

Nós não apagamos pessoas.

Aprendemos é a viver sem as provas.

Eu não desapareci.

Só deixei de aparecer onde já não pertencia.

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