Há um momento estranho depois de algo acabar.
Não é o fim em si.
Nem o silêncio.
Nem sequer a distância.
É quando ela te pede para apagar as fotos.
Os vídeos.
As partes mais íntimas do que vocês viveram.
Porque “já não faz sentido.”
Porque precisa de “se proteger.”
E tu ficas ali a pensar...
Proteger-se de quê?
Do facto de que fomos reais?
É estranho como algo que antes era tão natural, tão próximo, tão nosso, de repente passa a ser algo que precisa de ser apagado.
Como se fosse um erro.
Como se nunca devesse ter existido.
E nesse momento percebes:
Não estás só a perder a pessoa.
Estás a ser removido da história.
Eu não queria desaparecer.
Não precisava de fazer parte do presente dela.
Mas queria existir naquilo que foi verdade.
Porque eu fui real.
Lembro-me de coisas que não existem em mais lado nenhum.
A forma como ela olhava para mim por mais um segundo... e depois desviava o olhar.
A maneira como a voz dela mudava quando estava cansada.
Aquele momento em que nenhum de nós queria desligar.
E como tudo parecia... simples.
Como se nada precisasse de ser explicado.
Nada disso vive em fotos.
E talvez seja por isso que custa mais.
Porque apagar as fotos não apaga o que realmente importou.
Mas há uma parte que quase ninguém fala.
Ficar preso a memórias onde já não tens lugar vai-te tirando coisas, aos poucos.
Clareza.
Direção.
Identidade.
Eu senti isso.
Cada vez que abria a galeria, parava, e ficava ali mais tempo do que devia.
Não era lembrar.
Era revisitar.
Voltar a um sítio que já não existia.
E ela já não estava lá.
Era só eu a voltar.
E a certa altura, isso deixa de ser amor.
E passa a ser resistência.
Ela queria distância.
Queria sentir-se segura.
E eu entendo isso.
Nem toda a gente carrega o passado da mesma forma.
Mas chegou um ponto em que também tive de me respeitar.
E deixei ir.
Não porque não importasse.
Não porque não tivesse sido real.
Mas porque ficar ali estava, silenciosamente, a prender-me.
Nós não apagamos pessoas.
Aprendemos é a viver sem as provas.
Eu não desapareci.
Só deixei de aparecer onde já não pertencia.