Aprendi cedo que algumas pessoas entram no jogo já protegidas.
Nascem em casas silenciosas. Com comida no frigorífico. Com tempo para errar. Tempo para sonhar. Tempo para descobrir quem são.
Outras não.
Outras começam a partida encostadas à parede, a tentar sobreviver antes mesmo de perceberem as regras.
No bairro onde cresci, ninguém falava de xadrez.
Falava-se de contas. De respeito. De oportunidades que nunca chegavam inteiras. Falava-se de vizinhos cansados, mães fortes demais para descansar e homens que envelheciam cedo sem dar por isso.
Mesmo assim, olhando para trás, percebo que toda a gente se movia como peças.
Os peões acordavam primeiro.
Saíam cedo, regressavam tarde e carregavam o peso do tabuleiro inteiro sem quase nunca aparecerem na fotografia final. Eram os homens das obras, as mulheres do mercado, os miúdos que cresciam rápido demais porque a vida não lhes deu alternativa.
Os cavalos eram diferentes.
Nunca andavam em linha reta. Aprenderam cedo a sobreviver pelos lados, a escapar quando o mundo fechava portas pela frente. Alguns tornaram-se criativos. Outros perderam-se nos próprios desvios.
As torres eram os que resistiam.
Os que aguentavam tudo de pé mesmo rachados por dentro. Pais. Irmãos mais velhos. Mães silenciosas. Gente que transformava orgulho em armadura porque cair nunca pareceu uma opção.
E depois existiam os reis.
Toda a gente pensa que o rei manda.
Pouca gente percebe o medo constante de perder tudo num único movimento.
A vida ensinou-me xadrez antes de eu saber o nome das peças.