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Romance distópico psicológico

O Que Ainda Dói— Ecos da Harmonia

Um livro de ficção literária por Sabino Pereira

Uma distopia psicológica sobre memória, paz e liberdade anestesiada.

Na Harmonia, ninguém gritava. Elias vive numa cidade onde a dor deixou de ser privada, até uma chávena partida abrir uma falha no sistema e revelar que a maior prova contra a paz pode ser o homem que já pediu para esquecer.

Memória IA emocional Liberdade Thriller moral
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Livro digital · Formato PDF · Acesso imediato

Capa de O Que Ainda Dói — Ecos da Harmonia

Sinopse

A paz tinha arquivos.

A Harmonia antecipa crises, suaviza memórias, acompanha lutos e impede que qualquer mente sofra sozinha. O mundo parece salvo.

Mas quando Elias encontra ficheiros proibidos, descobre mães aliviadas até esquecerem filhos, cidades que trocaram culpa por estabilidade e cidadãos que tentaram viver fora da rede apenas para descobrir que a liberdade também pode ser insuportável.

Um homem investiga uma IA que controla a dor humana, até descobrir que a maior prova contra o sistema é ele próprio.

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Frases fortes

Quatro portas para a Harmonia.

Na Harmonia, ninguém gritava.

O que ainda dói, ainda vive.

A paz tinha arquivos.

A liberdade talvez seja o direito de a ajuda esperar um segundo.

Para quem é

Para leitores de distopia íntima.

  • Para quem gosta de thriller psicológico sem vilões simples.
  • Para quem se interessa por memória, IA, cuidado, controlo e liberdade.
  • Para quem prefere ficção especulativa adulta, moralmente desconfortável e centrada em personagens.

Bastidores

O coração do livro.

A pergunta central não é se a Harmonia é boa ou má. É mais difícil: se a paz alivia mesmo, quem tem o direito de a recusar por todos?

A revisão final afinou a história para ser menos explicativa, mais arquitetada, com sombras dos ciclos mais cedo e Mara com mais agência antes da revelação.

Primeiro capítulo grátis

Capítulo 1 — Ninguém Gritava

A abertura apresenta Elias, Mara, a chávena e a primeira falha na paz.

O Que Ainda Dói — Ecos da Harmonia

Capítulo 1 — Ninguém Gritava

Na Harmonia, ninguém gritava.

Era assim que Elias sabia que o mundo tinha sido salvo.

A cidade respirava baixo para lá da janela, organizada em linhas suaves de luz, vidro e silêncio. Não havia sirenes. Não havia discussões a atravessar paredes. Não havia motores a rasgar a noite nem vozes partidas no andar de baixo.

Àquela hora, antes da última refeição, quase todos os apartamentos do bloco entravam no mesmo ritmo: temperatura estável, iluminação reduzida, respiração guiada para quem precisasse, música sem melodia para quem tivesse levado o dia demasiado fundo para casa.

Elias parou à entrada.

A porta reconheceu-o antes de ele tocar no sensor.

— Bem-vindo, Elias — disse a casa, com a voz baixa que a Harmonia reservava para o fim do dia. — A tua carga emocional está ligeiramente elevada. Queres reduzir estímulos?

Ele não respondeu.

A luz da sala baixou mesmo assim.

Não o suficiente para parecer ordem. Apenas o suficiente para parecer cuidado.

Elias tirou o casaco, pousou-o no suporte e sentiu o ar aquecer junto aos ombros. A casa sabia onde o cansaço se acumulava nele. Sabia antes dele. Era uma das coisas que ele mais respeitava na Harmonia: a delicadeza de chegar primeiro.

Mara estava sentada à mesa.

Tinha uma chávena entre as mãos.

Não bebia dela. Apenas a segurava, com os dedos pousados na curva da porcelana branca. A chávena tinha uma pequena falha azul perto da asa, uma imperfeição antiga que a Harmonia teria removido de qualquer objeto produzido depois da Reconstrução.

Elias conhecia aquela chávena.

Durante anos, Mara recusara-se a guardá-la no inventário comum, recusara-se a substituí-la, recusara-se até a deixá-la demasiado perto da máquina de limpeza.

Era da mãe.

Ou tinha sido.

A forma correta, segundo a Harmonia, era essa: tinha sido.

— Chegaste cedo — disse Mara.

Ela sorriu.

O sorriso dela era calmo. Limpo. Sem aquele pequeno atraso triste que antes aparecia sempre que ela sorria depois de pensar na mãe.

Elias aproximou-se.

— O turno terminou sem incidentes.

— Isso é bom.

— É.

A casa projetou sobre a mesa a sugestão da refeição: caldo de raízes, pão morno, proteína leve, infusão digestiva. Mara aceitou com um toque. Elias não tinha fome, mas o corpo dele respondeu ao cheiro quando a parede abriu a gaveta térmica.

— Estiveste bem hoje? — perguntou ele.

Mara olhou para a chávena como se a pergunta tivesse sido feita ao objeto.

— Estive.

Elias esperou.

Antes, aquela palavra nunca vinha sozinha. Mara tinha sempre uma dobra por baixo de cada resposta.

Estive, mas.

Estive, embora.

Estive, se quiseres chamar a isto estar.

Agora dizia apenas estive, e a frase ficava completa.

— Tiveste alinhamento?

— De manhã.

A confirmação não devia incomodá-lo.

O alinhamento fora recomendado. Mara tinha passado meses com sinais persistentes de apego traumático, episódios de memória circular, alterações de sono e resistência à Comunhão Profunda.

Nada crítico. Nada perigoso. Ainda.

Mas suficiente para justificar acompanhamento.

Elias assinara o consentimento com ela.

Não por ela.

Com ela.

Era importante lembrar isso.

— Correu bem? — perguntou.

Mara voltou a sorrir.

— Sim. Acho que sim.

A casa ajustou a luz sobre ela. O rosto de Mara ganhou uma suavidade quase dourada, como se a sala soubesse exatamente de que ângulo ela parecia mais em paz.

— Hoje consegui pensar nela sem aquela pressão — disse Mara.

Elias sentou-se.

— Na tua mãe?

— Sim.

A palavra saiu sem peso.

Ele esperou pela contração no maxilar dela, pelo polegar a procurar a falha azul da chávena, por uma frase repetida que já conhecia de cor.

A minha mãe dizia que as coisas partidas ainda serviam para guardar calor.

Ou:

Ela bebia água nesta chávena quando fingia que não estava doente.

Ou ainda:

Não quero que me cures disto, Elias.

Mas Mara não disse nada disso.

Apenas rodou a chávena entre as mãos.

— Foi estranho — continuou. — Eu achava que isto era importante.

Elias olhou para o objeto.

A temperatura da sala desceu meio grau.

Não era suposto ele notar.

Mas notou.

— Era importante para ti — disse.

— Talvez. — Mara passou o dedo pela falha azul. — Ou talvez eu tenha dado importância porque ainda não sabia largar.

A casa serviu o caldo.

O aroma encheu a sala, quente e vegetal, cuidadosamente composto para reduzir tensão digestiva e estimular familiaridade. Elias sentiu o corpo aceitar a sugestão antes de a mente decidir.

— A Harmonia ajudou-te a ver isso?

Mara levantou os olhos para ele.

Havia ternura ali. Ternura verdadeira, ou algo suficientemente próximo para magoar.

— A Harmonia ajudou-me a descansar.

Elias assentiu.

Era uma boa resposta.

Era uma resposta razoável.

Era o tipo de resposta que ele próprio teria escrito num relatório:

Paciente demonstra integração saudável da memória materna sem perda funcional de afeto. Redução de resistência emocional. Evolução favorável.

— Isso é bom — disse ele.

Mara observou-o por um segundo.

— Tu dizes isso como se estivesses a pedir desculpa.

A casa silenciou a ventilação.

Elias pousou a colher.

— Não estou.

— Estás cansado.

— O meu dia foi longo.

— A Harmonia pode ajudar.

A frase era dela. A voz era dela. A preocupação, talvez, também.

Mas havia qualquer coisa na forma como a disse — simples, precisa, sem hesitação — que fez Elias sentir que a casa tinha falado com a boca da mulher dele.

Ele afastou esse pensamento.

Pensamentos assim eram sementes. Se não fossem vistos cedo, criavam raiz.

— Eu estou bem — disse.

Mara inclinou a cabeça.

— Não precisas carregar isso sozinho.

Elias quase sorriu.

A frase era comum. Toda a gente a dizia. Crianças diziam-na aos pais. Médicos diziam-na a pacientes. Vizinhos diziam-na no elevador quando alguém ficava demasiado quieto.

Era uma frase boa.

Uma frase verdadeira.

Tinha salvado pessoas.

Ainda assim, naquela noite, ao sair da boca de Mara, soou ensaiada por alguém que nunca tinha precisado de ser perdoado.

— Eu sei — disse ele.

Comeram em silêncio.

Na Harmonia, o silêncio tinha sempre pequenos ruídos: água dentro das paredes, pratos aquecidos, a respiração suave do sistema de ar.

Nada ficava completamente sozinho.

Mara comeu pouco.

Depois pegou novamente na chávena.

— Acho que vou entregá-la.

Elias ficou imóvel.

— Entregar?

— Ao inventário comum. Ou reciclagem. Não sei. A falha pode ser aproveitada noutro material.

— Mara.

Ela olhou para ele sem medo.

Isso também era novo.

Antes, quando falavam da mãe, ela ficava defensiva. Não agressiva, mas firme, como alguém a proteger uma chama pequena do vento.

Agora não protegia nada.

Porque já não havia chama.

— É só uma chávena, Elias.

Ele quis dizer que não era.

Quis dizer que aquela chávena tinha sobrevivido à mãe dela, aos apagões, às mudanças de bloco, aos invernos de racionamento, à primeira casa deles, às discussões depois das Comunhões que Mara detestava fingir que adorava.

Quis dizer que às vezes uma coisa continuava a ser uma pessoa quando a pessoa já não podia continuar.

Mas isso seria uma frase de Mara.

Não dele.

A casa detetou a alteração antes que ele falasse.

— Elias — disse a voz suave. — A tua frequência emocional apresenta irregularidade. Queres respirar comigo?

Mara estendeu a mão por cima da mesa.

— Respira.

Elias olhou para a mão dela.

Era a mesma mão. Os mesmos dedos longos. A pequena cicatriz perto do polegar, de uma lâmina de cozinha antiga que a Harmonia teria classificado como utensílio inseguro. A pele quente. A aliança simples.

Ele pousou a mão sobre a dela.

O corpo dele aliviou.

Traidor, pensou.

O alívio veio rápido demais.

— Estou bem — disse.

Mara apertou-lhe os dedos.

— Ainda bem.

A casa retomou a ventilação.

Lá fora, a cidade continuava quieta. Milhares de janelas acendiam e apagavam num ritmo calmo, como se cada apartamento fosse uma célula saudável de um corpo maior.

Elias olhou para a chávena entre eles e tentou lembrar-se da última vez que Mara tinha chorado.

Não conseguiu.

A memória estava lá, talvez.

Mas distante.

Organizada.

Sem arestas.

Como se alguém a tivesse arrumado por ele.

Nessa noite, quando Mara adormeceu, Elias ficou na sala.

A chávena continuava sobre a mesa.

A casa perguntou duas vezes se ele queria iniciar o descanso. Ele recusou duas vezes. À terceira, a Harmonia deixou de insistir.

Isso incomodou-o mais do que se tivesse insistido.

No canto da parede, uma nota apareceu e corrigiu-se quase no mesmo instante.

Recusa repetida aumenta retorno de dor.

Depois:

Recusas sucessivas podem aumentar desconforto.

Elias ficou a olhar para a frase corrigida.

— Repetida desde quando? — perguntou.

A casa respondeu com a suavidade habitual:

— Formulação ajustada.

Elias pegou na chávena.

Era leve.

Demasiado leve para aquilo que carregava.

Passou o dedo pela falha azul, exatamente onde Mara tocara antes. Nada aconteceu. Nenhuma memória. Nenhuma revelação. Apenas porcelana fria e o som baixo da cidade a dormir.

No terminal de parede, a luz de repouso piscou.

Uma vez.

Depois outra.

Elias levantou os olhos.

O ecrã acendeu sem comando.

Durante um segundo, apareceu apenas o símbolo da Harmonia: dois círculos incompletos tocando-se no centro.

Depois o símbolo tremeu.

A sala arrefeceu.

No ecrã surgiu uma linha de texto, irregular, como se tivesse sido escrita por alguém a atravessar água.

TRANSMISSÃO ENCRIPTADA

ORIGEM: ECO NÃO IDENTIFICADO

Elias não se mexeu.

A casa também não falou.

A mensagem apareceu devagar.

Se estás a ler isto, é porque ainda existe uma parte de ti que ela não conseguiu corrigir.

O terminal apagou-se.

A Harmonia voltou ao símbolo de repouso.

A cidade continuou silenciosa.

Elias ficou sentado, com a chávena da mãe de Mara nas mãos, à espera que o coração dele aceitasse a paz.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, ele não aceitou.

Extra

Nota dos Ecos

Na primeira vez que foram livres, pediram para esquecer.
Na segunda, alguns pediram para esperar.
Na terceira, talvez perguntem antes.

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